terça-feira, 10 de novembro de 2009

Começo este blogue e um novo (espero) capítulo da minha vida encerrando um outro. O de Missão...fechando ,não, encostando. Vivendo outras páginas, outros lugares, outras gentes e outros momentos. Sendo um novo eu. Um eu melhor e maior. Encerro-o com o meu testemunho de Missão.

"Este ano tenho mais dificuldade em escrever o meu testemunho de Missão. O diário está vazio de palavras e de histórias. Sinto que o meu verdadeiro testemunho de Missão são rostos, sons, momentos e não consigo transmitir nada disso para papel. Para além disto falta tranquilidade e disponibilidade para parar e pensar sobre Missão....dói maningui (muito). Dói por tudo o que vivemos, por tudo o que sentimos, por todos os que ficaram lá. Achei que iria ser mais fácil... Mas há dias e momentos em que o coração fica tão imensamente pequenino. E não sei como calar as saudades e não sei como disfarçar os silêncios que se vão instalando em mim. E queria voltar, E queria ficar (Lá). E não quero estar aqui, E não quero ver estas pessoas... E, depois de tudo isto, volta o esforço de integração e de entrega. Começam a haver momentos menos forçados e já vai custando menos. um dia sairão tão natural e magicamente como Lá. Acredito piamente nisso(ou preciso mesmo de acreditar nisso).

Quando se percorre duas vezes o mesmo caminho correm-se vários riscos: o risco de acharmos que já sabemos tudo sobre aquele caminho, o risco de tropeçarmos nas mesmas pedras onde antes já tínhamos tropeçado ou o risco de já não saborearmos o caminho pelo que é, mas pelo sabor que já estava entranhado em nós. De volta à minha Maxixe volto-me a deixar cativar por ela e pelas pessoas que nela vivem. Passando menos tempo a olhar para cima à procura de estrelas e passando menos tempo a reparar nos meus próprios pés descubro que as verdadeiras estrelas são os donos dos pés que caminham junto aos meus e aqueles que vou descobrindo, tocando e procurando tocar ao longo do caminho. Neste esforço de aproximação e de chegar ao outro pomo-nos ao dispor e procuramos cativar. Acabamos por ser cativados primeiro. É como dar. Recebemos sempre muito mais do que damos, por muito que se dê (e nós demos) recebemos sempre mais – “T.I.A (This Is Africa)”. Lembrei-me tantas vezes desta expressão. Há coisas surreais e revoltantes que só em África acontecem (ou que acontecem mais lá) mas há cosias tão bonitas, tão puras que só lá as vemos, sentimos e vivemos - pelo menos verdadeiramente( Amor, Deus, entrega...).

Descobri tanta coisa este ano.. Descobri que há coisas que são mesmo sobrevalorizadas...como a cor de pele. A vida inteira me disseram que as pessoas em África se chamam pretos( os ditos pretos não gostam de ser chamados assim; preferem negros). A mim, Lá, diziam-me que sou branca, mas que a minha alma é moçambicana - o sinal é evidência disso. Não sei, nem me interessa. Gosto de homens e de mulheres sem cor, sem continente, a Maxixe está repleta de pessoas dessas. Pessoas que ocupam um lugar fora de si mesmas, lugar esse sem limites de tempo, de espaço ou de lógica - o amor.

Descobri ainda que a Maxixe será sempre a minha casa e que me irá sempre envolver e prender, e que haverá sempre mais por conhecer e por amar. Descobri em mim uma capacidade de amar e de me entregar ao outro que não conhecia e o resultado é um amor que não cabe em mim e que não me dá paz. Nesta descoberta de mim e do outro vi e senti Deus tantas vezes e em tantas pessoas, céus! Ele é tão visível Lá.

Com os meus ermãos descobri que cada um de nós é um dom dEle e que os diferentes ritmos e os diferentes tipos de passos só enriquecem a caminhada quando conseguimos encontrar a “nossa melodia” …essa melodia, só é possível com Ele e por Ele. De cada um deles recebi alguma coisa que acrescentei à minha personalidade, neste esforço de ser mais e melhor que é a vivência GAS Africana. Nada do que vivi e do que fiz faria algum sentido se não partilhado nem vivido sem eles os cinco. Nyibonguide (obrigada). Quero que saibam que ‘são importantes para mim’.

Ermã Lottie

Porto, Outubro de 2009"

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